{"id":469,"date":"2015-08-15T14:05:17","date_gmt":"2015-08-15T17:05:17","guid":{"rendered":"http:\/\/lilawitte.com\/?p=469"},"modified":"2016-12-03T20:31:14","modified_gmt":"2016-12-03T23:31:14","slug":"o-cao-que-tinha-uma-lata-amarrada-no-rabo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/atemporalerandomico.com\/?p=469","title":{"rendered":"O c\u00e3o que tinha uma lata amarrada no rabo"},"content":{"rendered":"<p>Era um vilarejo como outro qualquer. Casas com belos quintais, crian\u00e7as nas ruas, pais que sa\u00edam com seus carros logo de manh\u00e3, donas de casa sempre vestindo seus aventais bordados e as deliciosas tortas de amora resfriando nas janelas, aquelas que d\u00e3o \u00e1gua na boca de qualquer um.<\/p>\n<p>O Sol subia todas as manh\u00e3s, convidando os paparicados cachorrinhos da regi\u00e3o a brincar com as crian\u00e7as. Cavando, correndo e sujando-as de terra. O Vilarejo das Flores &#8211; como era chamado- tinha tudo para ser comum. Alegre, colorido, mas comum. N\u00e3o havia nada de \u00a0se estranhar&#8230; At\u00e9 o Sol se p\u00f4r. Pois\u00a0a noite, pertencia ao c\u00e3o.<\/p>\n<p>Cicatrizes nas patas, focinho cortado, dentes afiados. Era o temor de todas as casas. Todos permaneciam em sil\u00eancio ao escutar o batido da lata no asfalto. Uma lata, pois em certo momento da hist\u00f3ria, com medo de que o cachorro ferisse mais moradores do que j\u00e1 havia ferido, dois corajosos homens amarraram o metal na cauda do animal. Assim, poderiam escut\u00e1-lo quando estivesse pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>O c\u00e3o perambulava pelas ruas derrubando latas de lixo esquecidas do lado de fora e atacando os moradores desatentos. N\u00e3o se sabia ao certo o porqu\u00ea dos atos violentos, mas quanto mais ocorriam, mais os moradores se preparavam.<\/p>\n<p>Logo n\u00e3o havia mais nada para ele nas ruas. As latas de lixo eram retiradas, as crian\u00e7as protegidas e as flores cercadas por grades. Novos port\u00f5es foram instalados. Maiores, mais brutos. Todos queriam noites de sossego, jantares em fam\u00edlia. E haviam conseguido. Estavam t\u00e3o felizes com suas medidas de seguran\u00e7a que se esqueciam do c\u00e3o circulando l\u00e1 fora.<\/p>\n<p>Passaram-se meses em sossego. A noite continuava a ser do c\u00e3o, mas sozinho, l\u00e1 fora. At\u00e9 aquela noite&#8230;<\/p>\n<p>Foi durante o jantar dos Freires, bem na hora da sobremesa, que ele apareceu. Magro, faminto, mais louco do que nunca. Estra\u00e7alhou\u00a0o vidro da janela ao saltar\u00a0para dentro da sala de jantar. Seu focinho escorria saliva; estava desesperado. Todos correram pela porta dos fundos enquanto o monstro pulava pela cozinha, se alimentando de tudo o que pudesse.<\/p>\n<p>A bagun\u00e7a acordou os vizinhos que sa\u00edam nas janelas, confusos. Ouviam-se os gritos da fam\u00edlia em desespero: \u0093&#8221;Socorro! Ele entrou! Ele entrou em casa!\u0094&#8221;\u00a0Ningu\u00e9m sabia como agir. Estavam estarrecidos.\u00a0A fam\u00edlia, que corria aos prantos pela rua, foi acolhida numa casa vizinha.<\/p>\n<p>Ao acabar a comida, o c\u00e3o correu sentido \u00e0s outras casas. O barulho da lata era ensurdecedor. As pessoas assistiam a assustadora cena das janelas escancaradas, rezando para que suas casas n\u00e3o fossem escolhidas pelo monstro. Infelizmente &#8211; para ele &#8211; o evento\u00a0n\u00e3o durou muito tempo: ao atravessar a janela da casa de Terezinha, teve a garganta cortada pelo vidro. Terezinha, que estava em choque, acalmou-se ao ver o bicho ensang\u00fcentado no ch\u00e3o, dando seus \u00faltimos suspiros. Com o sil\u00eancio da situa\u00e7\u00e3o, os moradores sa\u00edram \u00e0 rua, aproximando-se do corpo im\u00f3vel. Formou-se uma multid\u00e3o quieta ao redor da casa. N\u00e3o estavam aliviados, mas com pena. Que fim horr\u00edvel teve o c\u00e3o, todos concordavam.<\/p>\n<p>O corpo foi retirado da casa ap\u00f3s o momento de contempla\u00e7\u00e3o vel\u00f3rica. Era o fim daquele tormento, mas n\u00e3o pareciam contentes.\u00a0Teriam que se acostumar agora, \u00e0s noites de sil\u00eancio, sem o som da lata no asfalto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era um vilarejo como outro qualquer. Casas com belos quintais, crian\u00e7as nas ruas, pais que sa\u00edam com seus carros logo de manh\u00e3, donas de casa sempre vestindo seus aventais bordados e as deliciosas tortas de amora resfriando nas janelas, aquelas que d\u00e3o \u00e1gua na boca de qualquer um. 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