{"id":140,"date":"2011-10-27T02:41:50","date_gmt":"2011-10-27T05:41:50","guid":{"rendered":"http:\/\/lilawitte.com\/?p=140"},"modified":"2014-11-13T10:51:58","modified_gmt":"2014-11-13T13:51:58","slug":"tchau-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/atemporalerandomico.com\/?p=140","title":{"rendered":"Tchau Brasil&#8230;"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"http:\/\/lilawitte.com\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/1201.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-medium wp-image-144\" title=\"SONY DSC\" src=\"https:\/\/lilawitte.com\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/1201-200x300.jpg\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/atemporalerandomico.com\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/1201-200x300.jpg 200w, https:\/\/atemporalerandomico.com\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/1201-685x1024.jpg 685w, https:\/\/atemporalerandomico.com\/wp-content\/uploads\/2011\/10\/1201-700x1045.jpg 700w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi tudo culpa do z\u00edper!<\/p>\n<p>Eu j\u00e1 havia fechado a mala que despacharia, e estava terminando de encher a mala de m\u00e3o, super orgulhosa de mim mesma por levar apenas uma de cada. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que consegue uma proeza dessas sabendo que ficar\u00e1 um ano fora do pa\u00eds. Mas eu conseguira! Me sentia um monge, com aquela hist\u00f3ria toda de desapego. Mas aquele z\u00edper cretino tinha que acabar com os meus devaneios no mosteiro.<\/p>\n<p>Ele decidiu n\u00e3o fechar. Decidiu que a minha mala de m\u00e3o, super bem planejada, estava cheia demais pra ele e que n\u00e3o faria uma viagem t\u00e3o longa apertado daquele jeito. Eu estava atrasada, desesperada, assustada&#8230; e ele riu da minha cara. Ele riu na cara do perigo, desacatou a autoridade m\u00e1xima, comeu bife em sexta-feira santa. Eu empurrei, xinguei, puxei e sacudi. Nada. Foi o meu fim.<\/p>\n<p>Comecei a chorar feito um beb\u00ea. N\u00e3o sabia mais o que fazer. Parecia que todos os meus planos estavam indo por \u00e1gua abaixo, que tudo o que eu havia calculado tinha sido em v\u00e3o. N\u00e3o conseguia nem falar. Estava arruinada.<\/p>\n<p>Minha querida av\u00f3 tentava me confortar. Dizia para que eu n\u00e3o me preocupasse, que tudo ia dar certo. E eu sabia disso. Mas acho que todo o choro que at\u00e9 ent\u00e3o havia sido reprimido, veio \u00e0 tona, e eu n\u00e3o conseguia imped\u00ed-lo. Eu chorava alto; Retorcia o rosto e o sentia ficar vermelho. Continuei sentada no ch\u00e3o sem saber o que fazer, encarando a desgra\u00e7ada da mala de m\u00e3o. E realmente n\u00e3o fiz nada. Foi minha irm\u00e3 quem fez. Trouxe uma mochila e come\u00e7ou a dividir a bagagem. Meu orgulho se despeda\u00e7ou: eu levaria duas malas de m\u00e3o.<\/p>\n<p>O port\u00e3o do monast\u00e9rio se fechou na minha cara e pude ver os monges com olhares de reprova\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Da\u00ed pra frente eu me recusei em pensar na bagagem. Agradeci por ter uma irm\u00e3 e m\u00e3e t\u00e3o boas e gentis que organizaram tudo por mim. Meu estado emocional n\u00e3o me permitia mais ser racional.<\/p>\n<p>As imagens que passaram a freq\u00fcentar a minha mente continham rostos de amigos queridos e familiares dos quais eu sentiria falta. Comecei a me despedir do meu humilde apartamento. &#8220;Tchau, quarto. Tchau cama. Tchau arm\u00e1rio. Tchau banheiro. Tchau quarto da minha m\u00e3e&#8230;&#8221; Com solu\u00e7os e l\u00e1grimas entre cada despedida e lembran\u00e7as de acontecimentos maravilhosos que tivera com cada c\u00f4modo e objeto. Vivera ali por 18 anos e 11 meses da minha vida. N\u00e3o conseguia entender que n\u00e3o os veria durante um ano, ou talvez mais. Fazia meu cora\u00e7\u00e3o doer.<\/p>\n<p>O processo de despedida e reconhecimento da import\u00e2ncia de meus pertences queridos come\u00e7ou a demorar muito e o atraso a ficar cada vez maior. Dadas as circunst\u00e2ncias de risco, algu\u00e9m veio gentilmente me buscar. Acho que se ningu\u00e9m interrompesse, eu ainda estaria l\u00e1 me despedindo. Atravessei o apartamento com os olhos emba\u00e7ados pelo choro e fui me despedindo de tudo aquilo que podia. Mas fechar a porta do meu lar foi o pior de todos. Doeu no fundo dos meus ossos. Meu lar, minha vida. Eu os estava abandonando.<\/p>\n<p>&#8220;Tchau casa.&#8221;<\/p>\n<p>O processo do aeroporto tamb\u00e9m foi doloroso. N\u00e3o sa\u00ed do colo da minha m\u00e3e e n\u00e3o tenho vergonha de admitir. Era meu \u00faltimo aconchego antes de partir. E ficar um ano sem a mulher da minha vida&#8230; \u00c9, eu sei que vai ser dif\u00edcil. Ela esteve l\u00e1 todos os dias, linda e sorridente como sempre. Eu tinha que aproveitar at\u00e9 o meu \u00faltimo segundo no colinho dela. Afinal, n\u00e3o tem nada melhor do que colo de m\u00e3e.<\/p>\n<p>Contar cada minuto era t\u00e3o triste e ao mesmo tempo muito emocionante. Eu sabia que estava chegando perto da hora de me despedir da minha fam\u00edlia, mas tamb\u00e9m sabia que tava cada vez mais pr\u00f3xima da minha grande aventura. Ent\u00e3o eu chorava de felicidade por conquistar algo pelo qual eu batalhara tanto e de tristeza por ficar longe daqueles que amo. \u00c9 uma confus\u00e3o danada.<\/p>\n<p>N\u00e3o parei de abra\u00e7ar, beijar, chorar e sorrir. Tentar ouvir atentamente qualquer palavra que dissessem, para ter certeza de que n\u00e3o me esqueceria do som de suas vozes. Eu vou sentir tanto a falta deles.<\/p>\n<p>O rel\u00f3gio n\u00e3o foi nada gentil.<\/p>\n<p>18:30. Hora de partir. Meu cora\u00e7\u00e3o rachou ao meio. Passou t\u00e3o r\u00e1pido! Eu desejei s\u00f3 por alguns instantes voltar pra casa. Mas eu sabia que ningu\u00e9m permitiria isso. Muito menos minha consci\u00eancia. Ela seria cruel. Me puniria pelo resto da vida. E talvez at\u00e9 depois disso. Ela nunca foi delicada comigo. Sendo assim, racional, estava na hora. Queria que todos ali fossem pequenos o bastante para lev\u00e1-los no bolso. Mas provavelmente teria problemas na alf\u00e2ndega. Ouvi dizer que s\u00e3o muito r\u00edgidos quanto ao tr\u00e1fico de gnomos. Ent\u00e3o n\u00e3o houve escapat\u00f3ria.<\/p>\n<p>Os \u00faltimos sorrisos e olhares antes de partir. Os \u00faltimos beijos e abra\u00e7os. E eu os fiz com vontade.<\/p>\n<p>Tchau m\u00e3e. Tchau v\u00f3. Tchau irm\u00e3os. Tchau cunhados. Tchau fam\u00edlia.<\/p>\n<p>N\u00e3o consegui parar de olh\u00e1-los enquanto cruzava o corredor de embarque. Derramei as \u00faltimas l\u00e1grimas, mas com um sorriso no rosto por sentir aquele amor t\u00e3o grande. Acenei. E os perdi na divis\u00f3ria. Respirei fundo em confus\u00e3o, mas soube que era esse o meu momento. O meu novo come\u00e7o.<\/p>\n<p>Deixei a coragem tomar conta de mim.<\/p>\n<p>Minha respira\u00e7\u00e3o falhava e eu morria de vergonha da minha cara de choro. Mas decidi n\u00e3o me importar. Isso era o de menos. Eu precisava me localizar e ficar atenta. Estava por conta pr\u00f3pria agora e tinha uma longa jornada pela frente. Cada passo me fazia sentir mais confiante e em poucos instantes me senti em paz. Eu sabia o que estava fazendo e sabia o porqu\u00ea de faz\u00ea-lo. Senti que era aquela a minha estrada.<\/p>\n<p>Eu estava no lugar certo.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o se reergueu de orgulho.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 com voc\u00ea agora.\u201d<\/p>\n<p>Tchau aeroporto. Tchau Brasil&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; Foi tudo culpa do z\u00edper! Eu j\u00e1 havia fechado a mala que despacharia, e estava terminando de encher a mala de m\u00e3o, super orgulhosa de mim mesma por levar apenas uma de cada. N\u00e3o \u00e9 todo mundo que consegue uma proeza dessas sabendo que ficar\u00e1 um ano fora do pa\u00eds. Mas eu conseguira! 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